terça-feira, março 29, 2005



De esperas e expectativas



Em algum momento chegamos a conclusão de que o que nos faz sofrer é o excesso de expectativas que criamos. Esperamos demais das pessoas, do trabalho, do futuro, da vida. Deveríamos ser sábios o bastante para abrirmos mão disso e aceitarmos a vida como ela é, um presente, e no presente. Para integrarmo-nos ao fluxo, para amarmos incondicionalmente, para aceitarmos que nada se perde e, ao mesmo tempo, nada permanece. Mas estamos só aprendendo, às vezes mais depressa, às vezes bem devagar.
Honestamente tenho que admitir que aprendi pouco: espero demais, queimo etapas, tenho às vezes uma pressa perigosa ou um temor paralisante. Medo do que é novo e cansaço do que é velho. Contraditória até a raiz dos cabelos, mas assim me reconheço, vivo, sigo em frente. Vida real. Nem sempre sei o que espero das pessoas, quase nunca sei o que esperam de mim, mas estou aqui e acredito . Acredito em coisas fora de moda: respeito, solidariedade, delicadeza, dedicação, troca. Acredito nas pessoas e por acreditar espero. E por esperar, quem sabe demais, fico triste.

sábado, março 26, 2005


Virtual


A boca. Os olhos. A curva dos ombros, os pés...Um rosto, meu rosto...
Desmonto meu quebra-cabeça: águas de Narciso, espelho de Medusa, salvo-me pela fragmentação.
Em lugar nenhum sou inteira. Construo um ser ao meu gosto e tudo me serve de espelho.
Cabelos, pescoço, olheiras que deveriam ter sido transitórias.
Reflexos, miragens, tudo parte de mim, fragmentos sem sombras.
E essa dor inexplicável de existir, em algum lugar, de alguma forma.

sexta-feira, março 25, 2005


Cai chuva do céu cinzento

Que não tem razão de ser.

Até o meu pensamento

Tem chuva nele a escorrer.

Tenho uma grande tristeza

Acrescentada à que sinto.

Quero dizer-ma mas pesa

O quanto comigo minto.

Porque verdadeiramente

Não sei se estou triste ou não,

E a chuva cai levemente

(Porque Verlaine consente)

Dentro do meu coração.

Fernando Pessoa




terça-feira, março 22, 2005

A poesia começa:
num fundo branco,
inatingível a rodeios;
num mundo branco,
inacessível a alheios;
num átimo em branco,
inacabável e sem freio.
A poesia termina:
sem o fundo branco,
inextirpável dos recheios;
sem o mundo branco,
inexplicável pelos receios;
sem o átimo em branco,
inefável e a passeio.

Bruno Domingues Machado

http://diariosdomundo.blogspot.com/

segunda-feira, março 21, 2005


A RUA

Bem sei que muitas vezes,
o único remédio
é adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
a dívida, o divertimento,
o pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
de contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não, apenas,
esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.
A esperança
nunca é a forma burguesa, sentada e tranqüila da espera.
Nunca é a figura de mulher
do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.

(Cassiano Ricardo, Um dia depois do outro, 1947.)

sábado, março 19, 2005


Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!

Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde

Amor no Eter, Adélia Prado


Sumaúma


Teu corpo de terra
áspero e quente
estende e aprofunda
raízes

Agradecidos e mudos
tocamos tua pele

mansamente
devolvidos à
dimensão
de folhas.

domingo, março 13, 2005




O tempo nos parques gera o silêncio do piar dos pássaros
Do passar dos passos, da cor que se move ao longe.
É alto, antigo, presciente o tempo nos parques
É incorruptível; o prenúncio de uma aragem
A agonia de uma folha, o abrir-se de uma flor
Deixa um frêmito no espaço do tempo nos parques.

Vinicius de Moraes

sábado, março 12, 2005




contranarciso

em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como

eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz

Paulo Leminski


Todas as Horas
Eu te amo assim hesitante
Cauteloso
Como quem devesse um dia odiar

Eu te odeio assim hesitante
Receoso
De que um dia devesse te amar

Eu vivo assim hesitante
Temeroso
De que cada esquina esconda o final

Hesitante...
Como quem devesse viver
O amor, o ódio
E as paixões de todas as horas
Comedidamente
Ricardo Almeida

quinta-feira, março 03, 2005



Não busques para lá.
O que é, és tu.
Está em ti.
Em tudo.
A gota esteve na nuvem.
Na seiva.
No sangue.
Na terra.
E no rio que se abriu no mar.
E no mar que se coalhou em mundo.
Tu tiveste um destino assim.
Faze-te a margem do mar.
Dá-te à sede das praias
Dá-te a boca azul do céu
Mas foge de novo à terra.
Mas não toque nas estrelas.
Volve de novo a ti.
Retoma-te.


Cântico XXII, Cecília Meireles

terça-feira, março 01, 2005



Ítaca

Se partires um dia rumo à Ítaca
Faz votos de que o caminho seja longo
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem lestrigões, nem ciclopes,
nem o colérico Posidon te intimidem!
Eles no teu caminho jamais encontrarás
Se altivo for teu pensamento
Se sutil emoção o teu corpo e o teu espírito. tocar
Nem lestrigões, nem ciclopes
Nem o bravio Posidon hás de ver
Se tu mesmo não os levares dentro da alma
Se tua alma não os puser dentro de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
Nas quais com que prazer, com que alegria
Tu hás de entrar pela primeira vez um porto
Para correr as lojas dos fenícios e belas mercancias adquirir.

Madrepérolas, corais, âmbares, ébanos
E perfumes sensuais de toda espécie
Quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrinas
Para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas, não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
E fundeares na ilha velho enfim.
Rico de quanto ganhaste no caminho
Sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu
Se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência.
E, agora, sabes o que significam Ítacas.

Constantino Kavafis (1863-1933) in: O Quarteto de Alexandria - trad. José Paulo Paz