sábado, abril 30, 2005
sexta-feira, abril 29, 2005

Caminho pelo acaso dos meus muros,
buscando a explicação de meus segredos.
E apenas vejo mãos de brando aceno,
olhos com jaspes frágeis de distância,
lábios em que a palavra se interrompe:
medusas da alta noite e espumas breves.
Uma parábola invisível sabe
o rumo sossegado e vitorioso
em que minha alma, tão desconhecida,
vai ficando sem mim, livre em delícia,
como um vento que os ares não fabricam.
Solidão, solidão e amor completo.
Êxtase longo de ilusão nenhuma.
Cecília Meireles
Para os que gostam das fotos:
http://noliv.multiply.com/photos
quarta-feira, abril 27, 2005

Nacionalista
para Alice
no país de alice a terra
gretada esfola-se ao sol e ela
zomba da água molhando
as pontas
de seus pés no país
de alice milhares
de homens perdem-se nas
ruas e ela
corre
atrás das abelhas do jardim no país
de alice as prisões
superlotam as ruas
fedem ela
dorme no meu colo chama-me
pai e deixa-me enganar
as horas
nos cachos
de seu cabelo
loiro nas minhas velhas
mãos
Adair Carvalhais Junior
Desencontrados Ventos
http://adairjr.multiply.com./
http://ventosdesencontrados.blogspot.com/
http://www.outrasletras.com.br/desencontradosventos/
segunda-feira, abril 25, 2005
sexta-feira, abril 22, 2005
quarta-feira, abril 20, 2005

Sob o sol em meu leito após a água -
Sob o sol e sob o reflexo enorme do sol sobre o mar,
Sob a janela,
Sob os reflexos e os reflexos dos reflexos
Do sol e dos sóis sobre o mar
Nos vidros,
Após o banho, o café, as idéias,
Nu sob o sol em meu leito todo iluminado
Nu - só - louco -
Eu!
(Paul Valéry, 1933. Sem título, XVI, 204. Cadernos - tradução de Augusto de Campos)
terça-feira, abril 19, 2005
sábado, abril 16, 2005

Dádiva
Que dia feliz.
A névoa se dissipou cedo.
Me pus a trabalhar no jardim.
Colibris quietos sobre a madressilva.
Nada sobre a terra que eu quisesse ter,
ninguém sobre a terra que eu pudesse invejar.
Havia esquecido tudo o que sofri,
não tinha já vergonha do homem que fui.
Não me doía o corpo.
Ao endireitar-me, vi o mar azul e as velas
Berkeley, 1971
Czeslaw Milosz
sexta-feira, abril 15, 2005

(para Sérgio)
Canarinho da terra
canarinho do rio
canário da Bahia
Que qui tu tem canário?
Sabiá da mata, sabiá congá
sabiá da praia
Que qui tu tem na asa?
quando disser não caia
Meu curió do brejo
meu sofrê sem dor
Minha lavandeira
Que qui tu tem jandaia
que avua tão ligeira?
Gavião peneira, gavião penacho
pato da lagoa
Que qui tu vê na água
que tanto te magoa?
Minha zabelê
minhas andorinhas
Oh! ó meu canarinho
Que qui tu tem bichinho?
que cisca miudinho
que canta corridinho
que avoa tão baixinho
que não voltou pro ninho
Que qui tu tem canário?...
(Qué qui tu tem canário? Xangai e Capinan)
quarta-feira, abril 13, 2005

Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de as olhar um momento.
Ah ! Se exigirem documentos aí do Outro Lado,
extintas as outras memórias,
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas
de um álbum de imagens:
aqui uma pedra lisa,
alí um cavalo parado
ou
uma
nuvem perdida,
perdida ...
Meu Deus ,que modo estranho de contar uma vida !
Mário Quintana
domingo, abril 10, 2005
sábado, abril 09, 2005

"Estou vivo e é por isso que o peito se desmancha
contemplando, o coração é que contempla o mundo
e absorve matéria do infinito,
eu contemplando sou uma única e solitária visão,
no entanto soma-se a mim
o indescritível e único ser do outro,
um contorno poderoso, uma outra vastidão
de corpos, frescor e sofrimento,
mergulho no hálito de tudo que contemplo,
sou eu-teu-corpo ali, lançado às estrelas,
sou no infinito, sou em tudo por que
meu coração-pensamento existe em tumulto,
espanto, piedade, te sabe, te contempla".
Hilda Hilst, Tu não te moves de ti.
domingo, abril 03, 2005

Bonecas
Caixas embrulhadas em papel pardo sobre o armário da avó.
Preservadas de mim, minhas bonecas não podiam brincar.
Aguardávamos sonhadoras o dia da faxina grande, da troca
dos papéis, do desembrulhar de tudo. Dia de festa, de vez em quando chegava.
Intervalos e esperas, esquecimento. Os olhos tornaram-se opacos, a pele de vinil desbotou.
A mãe não sabia que bonecas envelhecem na caixa.
Uma culpa sem graça nos seus olhos negros, mais infantis que os meus.







