domingo, janeiro 30, 2005



Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone - taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia)
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória,
a outra cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz...

Samba-canção, Ana C



sábado, janeiro 29, 2005



Lago

Círculos
concêntricos
na superfície ferida
pela pedra -

minha angústia
quase nada interfere
na dispersão dos peixes
ou na concentração
da garça

mas as certezas que
eu tinha fugiram
assustadas

quarta-feira, janeiro 26, 2005



Chuva

NICOLÁS GUILLÉN

Sob o céu cor de chumbo
de uma tarde chuvosa,
chora a água com lágrima
monótona.

Olho pelas vidraças
as árvores nervosas
se enfeitarem com filas
de gotas.

O arroio transbordou,
inundou quatro choças.
(Sobressalta-me a odisséia desta formiga,
afogada numa rosa.)


Lluvia

Bajo el cielo plomizo
de la tarde lluviosa,
llora el agua con lágrima
monótona.

Miro tras los cristales
las ramas temblorosas
enjoyarse con sartas
de gotas.

Se desbrodó el arroyo, inundó cuatro chozas.
(A mí me sobresalta la odisea de esta hormiga,
ahogada en una rosa.)


Para lavar a alma, para transbordar os rios, para molhar as plantas,para arrastar o lixo, para esconder a lágrima, para atrapalhar o trânsito, para esfriar os ânimos e, com sorte, colorir com um arco íris a tarde....chove sobre a cidade
(Previsão do Tempo)


sábado, janeiro 22, 2005



Um dia ela olhará meu jeans, minha sandália, minha camiseta, meus óculos, que sempre são os mesmos e nunca foram iguais aos dos outros caras, principalmente no outono estranho de São Paulo.

Diferente de muitos, sou um homem que consegue trocar de estilos, sou um sujeito que sabe muito bem quem é, afinal sou assim, como um camaleão tropical.

Tenho sentimentos diferentes em dias iguais, sentimentos iguais em noites diferentes.

Tem noites que penso de dia e tem dias que sinto à noite.

Quase todos os dias sinto pelo que penso.

Quase todas as noites escrevo...

Mas sou capaz de me camuflar na mesma pele.

Não é se repetindo que chegamos a nós mesmos, é mudando.

Tenho o espírito liquefeito, a mente dispersa, a vontade inquieta, mas sei o que quero, gosto do que sinto.

Singularidade, feição, estilo, despojamento, gratuidade... Muito comum às pessoas que são seguras como os camaleões.

Ora, por que sabemos que um camaleão é um camaleão? O que sabemos sobre os camaleões?

Porque ele troca de cor, de estampado, de aparência e, no entanto, quando o vemos, podemos dizer: - Eis um camaleão! Uma verdadeira celebração da natureza. Um "pé-na-bunda" na monocromia fashion que a cada estação desaba na nossa retina.

O camaleão causa uma verdadeira fobia nas modinhas e em algumas mocinhas talvez.

Um dia, talvez eu a deixe olhar minhas revistas velhas, meus desabafos literários, minha agenda, minha caixa postal... Talvez um dia a deixe usar meu jeans, minhas camisas e gravatas, enxugar-se na minha camiseta, e ela encontrará um cara para quem a felicidade é mais importante que o prazer, um cara que acha a direção mais importante que a velocidade. Um cowboy que adora metáforas, mas não dispensa nem duvida da pólvora.

Ela tirará, ansiosa que é, lições apressadas, talvez definitivas, mas não seria capaz de entender.

Até hoje (de manhã, no posto de gasolina) não foi, e talvez nunca será. Nunca o fora nestes últimos meses. Mas nem por isso deixarei de calibrar e recalibrar a pressão dos cinco pneus... Que pena, ainda acho que um dia ela olhará pra mim e combinaríamos de alguma forma, em alguma cor, em algum tom.

Por enquanto fico com a lembrança etérea da mistura de Donna Karan e gasolina aditivada me perturbando até o tanque esvaziar ou a ansiedade disfarçada de distração dela passar.

(Diário Noturno de 02/06/2001, sob a influência de José Castello, Postos Shell, e qual será mesmo o nome dela?)
ManuCoelho


O texto eu roubei, a foto fui buscar, o post vai com um abraço e o desejo de muitas felicidades para o moço aquariano....Parabéns, Manu!

http://www.fotolog.net/manucoelho

quinta-feira, janeiro 20, 2005



São Sebastião
Orides Fontela

As setas- cruas - no corpo
as setas
no fresco sangue
as setas
na nudez jovem
as setas- firmes - confirmando
____a carne


20 de janeiro, feriado na cidade que tem como padroeiro o santo crivado mas como símbolo os braços abertos do redentor...o sol não veio, chove no fim da tarde, não serve exatamente de consolo para quem, como eu, trabalha em outro município...feriado meio perdido, mas fica um desejo de sorte, paz a essa cidade que é de muitos contrastes - purgatório da beleza e do caos...
afinal..."o mundo é bão ,Sebastião"


Sebastian, Sebastião
Diante da tua imagem
Tão castigada e tão bela
penso na tua cidade
Peço que olhes por ela

Cada parte do teu corpo
Cada flecha envenenada
Flechada por pura inveja
é um pedaço de bairro
é uma praça do Rio
Enchendo de horror quem passa

Oô cidade, oô menino
Que me ardem de paixão
Eu prefiro que essas flechas
Saltem pra minha canção
Livrem da dor meus amados

Que na cidade tranqüila
Sarada cada ferida
Tudo se transforme em vida
Canteiro cheio de flores
pra que só chorem, querido,
Tu e a cidade, de amores

(Sebastian, Milton e Gil)

terça-feira, janeiro 18, 2005



Há uma hora certa,
no meio da noite, uma hora morta,
em que a água dorme.
Todas as águas dormem:
no rio, na lagoa,
no açude, no brejão, nos olhos d'água,
nos grotões fundos
E quem ficar acordado,
na barranca, a noite inteira,
há de ouvir a cachoeira
parar a queda e o choro,
que a água foi dormir...

Águas claras, barrentas, sonolentas,
todas vão cochilar.
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas,
fios brancos, torrentes.
O orvalho sonha
nas placas da folhagem
e adormece.
Até a água fervida,
nos copos de cabeceira dos agonizantes...
Mas nem todas dormem, nessa hora
de torpor líquido e inocente.
Muitos hão de estar vigiando,
e chorando, a noite toda,
porque a água dos olhos
nunca tem sono...

(O Sono das Águas, Guimarães Rosa)

O menino de verde no meio do verde é o Júlio, de olho nas águas bem acordadas da Cascatinha.
www.burricesuprema.blogspot.com o blog do moleque.


domingo, janeiro 16, 2005



você nunca vai saber
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade
pelo lado de dentro
como fazer um verso
um objeto sujeito
como passar do presente
para o pretérito perfeito
nunca saber direito

você nunca vai saber
o que vem depois do sábado
quem sabe um século
muito mais lindo e mais sábio
quem sabe apenas
mais um domingo

você nunca vai saber
e isso é sabedoria
nada que valha a pena
a passagem pra passárgada
xanadu ou shangrilá
quem sabe a chave
de um poema
e olha lá

Objeto Sujeito
Paulo Leminski

sábado, janeiro 15, 2005



Escrever qualquer coisa
por saudade,
por puro exercício

escrever alguma coisa
por vontade,
para ouvir silêncio
reforçar o hábito,
alimentar o vício

mas o dia evapora
como chuva

Janeiros passam...

é pena!


"Que fique muito mal explicado.
Não faço força para ser entendido.
Quem faz sentido é soldado".
Mário Quintana.

quarta-feira, janeiro 12, 2005



Noturno

O que enxergava, no silêncio
escuro de estrelas

verniz prateado
sobre as águas, o deserto
longo da praia
descalça

uma margem de pequenas
pedras

cascalho, conchas
e o movimento inquieto dos
peixes

entre as ondas
nadando em direções

contrárias.

Virna Teixeira


Na foto, um tanto estranha, peixinhos sob a água escura da Lagoa Rodrigo de Freitas, numa noite sem lua e sem ventos. Não fosse a inquietação das crianças, maior ainda que a dos peixes, teria ficado um bom tempo por ali, olhando a água escura, o Cristo Redentor...
Quem sabe teria ficado mais descansada, menos dispersa...

O poema bonito é da Virna:
http://papelderascunho.blogspot.com/


domingo, janeiro 09, 2005




Quando o mundo abandonar o meu olho
Quando o meu olho furado de belezas for
esquecido pelo mundo.
Que hei de fazer ?
Quando o silêncio que grita do meu olho não
for mais escutado.
Que hei de fazer ?
Que hei de fazer se de repente a manhã voltar?
Que hei de fazer?
- Dormir, talvez chorar.


Manoel de Barros, Biografia do Orvalho


quinta-feira, janeiro 06, 2005



Dilema

O que muito me confunde
é que no fundo de mim estou eu
e no fundo de mim estou eu

No fundo sei que não sou sem fim
e sou feito de um mundo imenso
imerso num universo
que não é feito de mim.

Mas mesmo isso é controverso
se nos versos de um poema
perverso sai o reverso.

Disperso num tal dilema
o certo é reconhecer:
no fundo de mim
sou sem fundo.

Antônio Cícero

segunda-feira, janeiro 03, 2005



Tecendo a Manhã

1.

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem

os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
e entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


( João Cabral de Melo Neto, A Educação pela Pedra)

sábado, janeiro 01, 2005



Uma palavra depois da outra
Um passo depois do outro
Inspirar, expirar..
Inspirar!
O ano agora é novo
e pede novo coração
para entrar diferente
no velho ritmo
no encadear contínuo das coisas





Quase frio!
Neblina cobrindo o horizonte, refletindo a iluminação da rua...branca ou prata, cores de paz.
Dava para ver uma ou outra estrela, a lua, dona do ano que inicia, só quase na hora, meia lua diagonal entre prédios e nuvens.
Flores brancas, amarelas, branco e amarelo também nas roupas, paz e prosperidade, o desejo de todo mundo.
Algumas moças arriscavam o vermelho, a vida é mais bonita com amor e paixão, e há que se ter saúde também!
Fogos poucos, mas bonitos, meio escondidos pela névoa.
No mais...sete ondas puladas...tres caroços de romã
...e o meu desejo sincero e confiante de um ano bom...para nós todos...

Feliz 2005 !




Ano-Novo
Ferreira Gullar

Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olha o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio

da Via-Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta)

Ferreira Gullar in Toda Poesia, 7.a edição, páginas 341-342