sábado, fevereiro 26, 2005


Valentim

O bronze
dá forma
ao impossível:

qualquer rosto
que se ame
será sempre
o nosso próprio

qualquer resposta
será sempre
a pergunta
devolvida -
qualquer paixão
repete a história

de Eco e
Narciso


"Nada com seu ser se conforma. Toda transformação exige uma explicação. O ser, sim, é inexplicável. Uns se transformam em feras, outros são mudados em lobos, em aves, em pombos, em árvore, em fonte. Só a ninfa Eco se transformou em sua própria voz. Em que língua falar com um eco? Uma uma língua língua lembra lembra uma uma lenda lenda, Narciso, Narciso Narciso.

Leminski, Metaformoses

quarta-feira, fevereiro 23, 2005


Resíduo

Um
ou dois
poemas
pequenos
escritos de
dentro de
uma flor

uma
pele de
cigarra

a eternidade gravada
numa bolha de sabão

***


Ontem

Lua cheia ontem
e a noite tão clara...

uma felicidade
meio boba:
sem lugar antes

sem lugar depois

domingo, fevereiro 20, 2005




abrigo

período de latência:
dentro do casulo tece
com fios de seda as asas
da metamorfose

Virna Teixeira


Muita água sobre a cidade ...
Desejo águas tranquilas para a moça duplamente pisciana, parabéns Virna!
http://papelderascunho.blogspot.com/

sábado, fevereiro 19, 2005


Poeminha
para Sérgio e Ana

Desenhos a lápis
no papel cinza
com cheiro
de pão

Água com
gosto do barro
da talha

Duas janelas abertas,
São Jorge na lua ,
e a gente imaginando
como a vida
ia ser

sexta-feira, fevereiro 18, 2005



Em Cloé, cidade grande, as pessoas que passam pelas ruas não se reconhecem. Quando se vêem imaginam mil coisas a respeito umas das outras, os encontros que poderiam ocorrer entre elas, as conversas, as surpresas, as carícias, as mordidas. Mas ninguém se cumprimenta, os olhares se cruzam por um segundo e depois se desviam, procuram outros olhares, não se fixam.

Passa uma moça balançando uma sombrinha apoiada no ombro, e um pouco das ancas, também. Passa uma mulher vestida de preto que demonstra toda a sua idade, com os olhos inquietos debaixo do véu e os lábios tremulantes. Passa um gigante tatuado; um homem jovem com os cabelos brancos; uma anã; duas gêmeas vestidas de coral. Corre alguma coisa entre eles, uma troca de olhares como se fossem linhas que ligam uma figura à outra e desenham flechas, estrelas, triângulos, até esgotar num instante todas as combinações possíveis, e outras personagens entram em cena: um cego com um guepardo na coleira, uma cortesã com um leque de penas de avestruz, um efebo, uma mulher canhão. Assim, entre aqueles que por acaso procuram abrigo da chuva sob o pórtico, ou aglomeram-se sob uma tenda do bazar, ou param para ouvir a banda na praça, consumam-se encontros, seduções, abraços, orgias, sem que se troque uma palavra, sem que se toque um dedo, quase sem levantar os olhos.

Existe uma contínua e luxuriosa vibração em Cloé, a mais casta das cidades. Se os homens e as mulheres começassem a viver os seus sonhos efêmeros, todos os fantasmas se tornariam reais e começaria uma história de perseguições, de ficções, de desentendimentos, de choques, de opressões e o carrossel das fantasias teria fim.


(As cidades e as Trocas 2, de As Cidades Ivisíveis, Italo Calvino)


segunda-feira, fevereiro 14, 2005



A cidade
sob os olhos
revelada

no escuro e
no silêncio

sob os olhos
de sono
a cidade

lâmpada
acesa

domingo, fevereiro 13, 2005



solidão e sentido


a solidão
faz mais sentido
quando é ampla e aberta

horizonte dividido
por uma linha sem fim
desenhada entre o céu e o mar


Assim


....assim?

http://poemas-nus.blogspot.com

sábado, fevereiro 12, 2005



Mar

Onde o fim
ou o começo?

A linha reta e
constante
é pura miragem -
limite dos olhos
de quem vê -
e toda calma
traição.

Mergulho.

Infalível mesmo
apenas o sal.

quinta-feira, fevereiro 10, 2005




Canção Desconfiada

Desconfie de certezas
Nada é
Nem se parece
E tudo que é sórdido
Se esconde no ar

Desconfie de fronteiras
A areia não termina
Onde começa a água
E eu não termino
Onde você começa
Se você me faz

E desconfie de quem ama
Não porque não ame
Mas porque amar
É perigosamente
Diluir as bordas
De certezas e fronteiras

Mas sobretudo desconfie de poetas desconfiados
Que desconfiam de tudo
Até mesmo de versinhos
Romanticamente sorridentes
E de poemas incertos
Que amam desfronteiras

Ricardo Almeida

www.poesiaresidual.blogspot.com

quarta-feira, fevereiro 09, 2005



É linda a Vila
"balançando"
nas ondas do mar
Rumo à vitória, navegar!


...e a Vila navegou em mares bravios,
mas foi bonito!!


domingo, fevereiro 06, 2005





Olokum
abre os caminhos do mar
pra minha Vila passar...



...é hoje!


quarta-feira, fevereiro 02, 2005


Renascer das cinzas
(Martinho da Vila)


Vamos renascer das cinzas
Plantar de novo o arvoredo
Bom calor nas mãos unidas
Na cabeça um grande enredo
Ala dos compositores
Mandando o samba no terreiro
Cabrocha sambando,

cuíca roncando,
viola e pandeiro
No meio da quadra,

pela madrugada,
um senhor partideiro
Sambar na avenida

de azul e branco
é o nosso papel
Mostrando pro povo

que o berço do samba
é em Vila Isabel
(Tão bonita)
Tão bonita é nossa escola
E é tão bom cantarolar
Lá, lá, laiá, laralaiá
Lá, laiá...


Fevereiro...
a gente sempre renascendo
de alguma cinza...

...e salve o azul da minha Vila Isabel!!!!

terça-feira, fevereiro 01, 2005




Muito bem, meu amor
Muito mal
Meu amor
O bem, o mal
Estão além do medo
E não há nada igual
O bem, o mal sem segredo
As marchas do Carnaval
Muito mal, meu amor
Muito bem
Nem vem com não tem
Que tem
Tem de ter
Na praça da capital
Muito mal
Meu amor
Tudo igual
Nada igual ao bem e o mal
Dois (experimente, é legal)
Eu creio que existe o bem e o mal
Mas não há nada igual
E tudo tem mel e tem sal

Torquato Neto