
I
Confidência
Na sala do velho
teatro o rangido das
cadeiras e a voz
do poeta - sou triste,
orgulhoso: de ferro.
Em paredes invisíveis
lembranças porosas
também doem
II
Na velha
casa amarela
lembrança de
quinze crianças
Em frente
antigos canhões
espreitam:
confronto mudo
retratado
no postal

II
15 anos
20...29...
O fio
tênue da
vida prende
menos que
a corda
atada
ao pescoço
IV
Cabelos desgrenhados
poucos dentes
o rosto queimado
do sol : vem cá moça
que eu conto tudodo seu amor...
Rapazes vendem
panelas de olhos
amendoados o índio
vende cestos e
a senhora de branco
um doce qualquer
De terno e chapéu
imundos o andarilho
dorme sob a estátua
do herói
V
O
vestido
estendido
no veludo
é branco
com fitas
azuis
pequeno
parece
traje demenina
na primeira
comunhão
mas
é vestido
de noiva
informa a
placano vidro
e serviu
para mãe
e filha
O
tempo
entranhado
no tecido
nos ata em
cadeias
azuis
VI
Amor perfeito
alma de gato
tudo é tão bonito
mas nada me diz respeito.
VII
Rodapé
As crianças são bonitas:
faces coradas, sorrisos
por trás dos casacos.
Depois tornam-se adultos tristes
e envelhecem antes do tempo.
Já os carros, longe da
maresia, duram mais.
Sinto saudades de casa.