sábado, dezembro 25, 2004



Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmistificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos a graça
dos presentes coloridos.
Nossa idade - velho ou moço - pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos e alvoroçados mais uma vez,
e revestidos de beleza, a exata beleza que vem
dos gestos espontâneos e do profundo instinto
de subsistir enquanto as coisas em redor
se derretem e somem como nuvens
errantes no universo estável.
Prosseguimos.
Reinauguramos.
Abrimos olhos gulosos para um sol diferente que
nos acorda para os descobrimentos.
Esta é a magia do tempo.
Esta é a colheita particular que se exprime no cálido
abraço e no beijo comungante, no acreditar na vida
e na doação de vivê-la
em perpétua procura e perpétua criação.
E já não somos apenas finitos e sós.
Somos uma fraternidade, um território, um país
que começa outra vez no canto
do galo de primeiro de janeiro e
desenvolve na luz o seu frágil projeto de
felicidade.

Carlos Drummond de Andrade©1987"Farewell" - Reinauguração

sábado, dezembro 18, 2004



"Sei lá.
O melhor é não procurar muito.
Tragam pacotinhos vazios.
A paz deve estar lá dentro."

A frase é de uma crônica do Drummond, não tenho certeza do nome, algo como "Presentes Para a Velha Senhora". É bem verdade que não se trata do Natal e sim do dia das mães, mas de qualquer forma acho que se aplica.
Queria escrever uma coisa bonita, que não fosse piegas, triste, repetitiva , mas ando pouco inspirada , preguiça boa de fim de ano - e que ano!
Então fico quietinha aqui e desejo a todos um Natal muito feliz, da maneira de cada um, com liberdade, saúde e muita paz!
Beijos e obrigada sempre pela presença de vocês aqui!

Neysi

quinta-feira, dezembro 16, 2004



"Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim..."

Dispersão (fragmento)
Mário Sá Carneiro

terça-feira, dezembro 14, 2004



acordei bemol
tudo estava sustenido

sol fazia
só não fazia sentido

P. Leminski

domingo, dezembro 12, 2004



"Atirei um limão n'água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.

...

Atirei um limão n'água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.

...

Atirei um limão n'água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente. "

Carlos Drummond de Andrade
A Lira do Amor Romântico
(Ou a Eterna Repetição)



sexta-feira, dezembro 10, 2004



Armadilhas

A
aranha
tece sua
teia-sistema-
processo-
incansável
transfoma tudo,
tronco , folha,
galhos
em invisível
armadilha.
Intercepta o vôo
livre das leves
e incautas
borboletas.

Risco por risco,
prefiro a ruptura.

Camuflada na imobilidade da pedra
a rapidez mortal do camaleão.


quinta-feira, dezembro 09, 2004



Comando

Não adiantarão seus dentes fortes
nem as minhas unhas afiadas.
A vida não se deixa agarrar.
Ela é uma moça de muitos rostos
e quer a nossa outra face.
Eu a encaro, ainda que no susto.
Ela é que manda.



terça-feira, dezembro 07, 2004



Costuro o infinito sobre o peito.
E no entanto sou água fugidia e amarga.
e sou crível e antiga como aquilo que vês:
Pedras, frontões no Todo inamovível.
Terrena, me adivinho montanha algumas vezes.
Recente, inumana, inexprimível
Costuro o infinito sobre o peito
Como aqueles que amam.

Hilda Hilst

domingo, dezembro 05, 2004



Árvore adentro

Octavio Paz

Cresceu em minha fronte uma árvore.
Cresceu para dentro.
Suas raízes são veias, nervos suas ramas,
Sua confusa folhagem pensamentos.
Teus olhares a acendem
e seus frutos de sombras
são laranjas de sangue,
são granadas de luz.
Amanhece
na noite do corpo.
Ali dentro, em minha fronte,
a árvore fala.
Aproxima-te.
Ouves?



"As árvores são fáceis de achar
Ficam plantadas no chão
Mamam do céu pelas folhas
E pela terra
Também bebem água
Cantam no vento
E recebem a chuva de galhos abertos
Há as que dão frutas
E as que dão frutos
As de copa larga
E as que habitam esquilos
As que chovem depois da chuva
As cabeludas, as mais jovens mudas
As árvores ficam paradas
Uma a uma enfileiradas
Na alameda
Crescem pra cima como as pessoas
Mas nunca se deitam
O céu aceitam
Crescem como as pessoas
Mas não são soltas nos passos
São maiores, mas
Ocupam menos espaço
Árvore da vida
Árvore querida
Perdão pelo coração
Que eu desenhei em você
Com o nome do meu amor."

As Árvores
Arnaldo Antunes e Jorge Ben Jor

quinta-feira, dezembro 02, 2004



A cidade
do alto
entre
as árvores

O céu
azul
entre
os prédios

O mar
entre
as pedras
onde não há
ninguém para ver

Borboletas
entre
alúminio
e concreto

Meus
olhos
ardem -

onde mesmo
deixei meus
óculos?

quarta-feira, dezembro 01, 2004



Manacá
(para Dárida e Celso)

O manacá floriu na varanda,
varanda de apartamento.
À noite o perfume entrará
pela janela do quarto
com o ruído dos carros
e a poeira da rua.
À noite, outras noites
virão descansar na varanda.