quarta-feira, maio 25, 2005



É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.
O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fossemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.


Cecília Meireles


Alguma coisa sempre se esquece, espero ter lembrado de levar o essencial.
Por conta da mudança o blog vai ficar um tempo ( tomara que bem curto) sem atualização.
Quando voltar quem sabe mudo alguma coisa, aliás o Sem Sentido está fazendo um ano agora em junho, então quando eu voltar, tem festa!

Um beijo para todos

Neysi

sábado, maio 21, 2005



Domingo


todo mundo pra
missa todo
mundo grita
alto pilar deixa

de preguiça pessoal le
vanta a
crescenta
rosário pra

missa todo
mundo repetem centenas
de sinos
juntos

na cama meu
corpo pagão insiste cedo
demais cedo
demais


Adair Carvalhais Júnior

http://adairjr.multiply.com./
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sexta-feira, maio 20, 2005



Mudança



II


sobra

uma tristeza vaga
e seca
azul , sem nuvens
um cansaço antigo
de alma
um vazio no fim
da rua
os olhos
que não encontram
montanha nem mar


****

O novo
no velho das casas
no barro e na poeira
no silêncio da rua
no meio dia parado
domingo de sol

O novo
no silêncio de grilos
e no céu de estrelas
no frio pressentido
na noite quieta
dormida em paz


****

Mudança:
não há começo
tampouco
fim

quarta-feira, maio 18, 2005



Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há-de voltar aos nossos membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello Breyner Andresen



sexta-feira, maio 13, 2005





Quando criança tinha muito medo de aranhas, até dessas pequeninhas que fazem teia nos cantos da parede e que a gente mal enxerga. Continuo não gostando de aranhas, mas hoje consigo até uma certa simpatia pela persistência dessas aranhinhas, quase transparentes, que aparecem dia sim, outro também, apesar da vassoura.

Não sei porque lembrei de aranhas agora, talvez por estar sozinha, por poder olhar para o teto, por estar repassando sem querer imagens de infância, ou pela repetida constatação de minha inabilidade para tarefas domésticas. Pois é, tenho tempo e em vez de aproveitá-lo em alguma tarefa útil, fico aqui pensando em teias, em sustos de criança e perco, quem sabe, meu próprio fio.

O que faria minha mãe agora? O que diria? Me pediria para ficar? Iria comigo cuidar das plantas no jardim? Quem sabe aprendo a fazer um bolo, não um bolo como um fato especial, mas um bolo cotidiano, para tomar com café, sobre uma toalha bonita. Não dá mais tempo para aprender a pentear Joana, ela passou da fase das fitas e cachinhos e me olha com descrédito quando digo que em uma época qualquer já fiz roupas para bonecas e enfeites de papel. E minha mãe, o que diria? De Joana, de Júlio, da cidade nova de casinhas de madeira , o que diria?

Júlio deita a cabeça no meu colo, cabelos cacheados , " isso nem é cabelo, mãe, é lã" e ninguém está satisfeito com o que tem. Faz aniversário e esse ano anida pode não ganhar a guitarra, aceita no lugar um livro , uma roupa, preta é claro, e um cd de uma banda que talvez eu não goste mas é muito maneira. Pensa um nome para a banda que um dia vai ter. Ri das minhas dúvidas, diz que eu posso não fazer doces que nem a Tia Ana mas conto boas histórias. Fala alguma coisas sobre aranhas e ecossistemas e depois confessa que também não gosta delas. E que faço um hamburguer quase igual ao do Mac Donald's. Minha mãe com certeza ia gostar do Júlio.

Esqueço as aranhas, a teia, semana que vem é aniversário do meu filho, no mesmo dia da minha mãe e Joana é de agosto, mesmo dia que a minha avó.

Retomo o fio...


Belo Belo


Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo - que foi? passou - de tantas estrelas cadentes.

A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.

O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.


Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.


Manuel Bandeira

segunda-feira, maio 09, 2005


Plenitude

A pedra, o vento,
a luz alteada,
o salso mar eterno,
o grito do mergulhão,
sob o infinito azul:
-Deus não me deve nada.

Hélio Pellegrino

sexta-feira, maio 06, 2005



(para Celso)

ÂMAGO

Quem bebe da fonte
que jorra na encosta,
não sabe do rio
que a montanha guarda.

Helena Kolody

quarta-feira, maio 04, 2005




Manhã nublada, um ponto de interrogação.
Ontem choveu, anteontem também.
Sobre o chão forrado
o homem espalha camisetas -
FÉ -
-tem de todos os tamanhos, freguesa!

domingo, maio 01, 2005



(para Dárida)

Caminho de formigas
na cerâmica vermelha.

A avó prende os cabelos.

Tão finos os cabelos da avó
tão mansos que dispensam
espelhos.

A vida segue exata:
dias limpos e leves
pendurados no varal.