domingo, outubro 31, 2004
sábado, outubro 30, 2004
É
A verdade que é eu tenho um ego enorme. Pronto , está dito, admitido. Se eu fosse ficar dando voltas, tentando uma maneira melhor de dizer isso, ia acabar descobrindo um jeito de achar que não é bem assim, sou legal pra caramba, o mundo é que é torto, etc. Agora está dito, quem quiser pode aproveitar, pois momentos assim de franqueza autodirigida são raros, daqui a pouco o muro levanta de novo e a leoa mostra os dentes. Vai ver é isso, muita coisa em Leão, disfarçadas pela tal diplomacia libriana...Viu? Desculpas não faltam..o tal do ego é grande mesmo. Poderoso. Melhor convencê-lo a trabalhar pra mim, como ensinou lá Mestre Ramakrishna, mas até chegar nesse ponto, muita estrada e um monte de bobagens feitas.Hora de pedir desculpas. Aquele papo de "não me arrependo de nada do que fiz, faria tudo outra vez igual" é bobagem. Me arrependo sim ,de um monte de coisas (já outras eu faria diferente só pra ver o que iria acontecer, a vida é cheia de possibilidades). Só que a vida não pára pra ouvir nossas desculpas, não senta com a gente para chorar. É aí que complica...tem coisa que tem conserto, tem coisa que não... a gente só fica sabendo depois . Melhor do que pedir desculpas é mudar de atitude, eu sei, mas enquanto não se decide pra que lado ir, o que é que precisa mudar...só para começar.. peço desculpas. No mais são um monte de perguntas que ficam sem resposta, como surdo da Mangueira...coisa boa a Mangueira...dá pra ouvir daqui...(fev2004)
é...de novo...ainda
o azul atrás da flor é o Maracanã.
quinta-feira, outubro 28, 2004
terça-feira, outubro 26, 2004
Luz no final
O final está logo ali
Naquele túnel brilhante.
Mas por que não vês,
Criatura feita
De mel-aço?
Tu apenas vês
A aranha que tece
Uma teia.
E a teia segura
O amor
Leila,
In Margens
http://leiluka.fotoblog.uol.com.br/
Gosto de andar pelas ruas do Centro e olhar os prédios antigos, as janelas, o contraste entre o novo e o velho. Ontem fiz umas fotos no Largo da Carioca e na Cinelândia, trabalho lá perto agora. Fotografei um túnel no Convento de Santo Antônio e ia postar a foto com um texto que escrevi, quando vi o poema da Leila.
Luz é luz, nós a alcançamos no fim dos túneis ou ela nos alcança através das clarabóias.
Se a gente deixar...
domingo, outubro 24, 2004
21st Century
Writing poetry in the 21st century
Is like smashing your face against a wall
Living right in the 21st century
Is just like not living at all
Thirty years ago everything was possible
And the future was but a promise
The future is here, the time is now
And now there’s nothing you can do about it
Everybody is laughing’
Cause it’s a brave new world
But nobody is having fun’
Cause it’s a grave this world
A poesia - e a mão por trás do chope - são do Ricardo Almeida
Poesia Residual
http://www.poesiaresidual.blogspot.com/
sexta-feira, outubro 22, 2004
Azul, azul
(para Joana e Roberto )
É tão fácil ser feliz
se o céu está assim
azul, azul..
Mais fácil ainda
se tem mar, se tem vento,
e tem Joana na areia
de biquini azul, azul..
Pena que depois a gente esquece
e fica triste à toa -
vai ver que é por isso
que Joana trouxe tanta areia no cabelo
e espalhou conchinhas pela casa inteira
-pra gente lembrar que outro dia
vai chegar azul, azul
para dar sorte, trazer de volta o sol, o bom humor e a vontade de continuar
O amor é difícil
mas pode luzir em qualquer ponto da cidade.
E estamos na cidade
sob as nuvens e entre as águas azuis.
A cidade. Vista do alto
ela é fabril e imaginária,
se entrega inteira
como se estivesse pronta.
Vista do alto,
com seus bairros e ruas e avenidas, a cidade
é o refúgio do homem, pertence a todos e a ninguém.
Mas vista
de perto,
revela o seu túrbido presente, sua
carnadura de pânico: as
pessoas que vão e vêm
que entram e saem, que passam
sem rir, sem falar, entre apitos e gases. Ah, o escuro
sangue urbano
movido a juros.
São pessoas que passam sem falar
e estão cheias de vozes
e ruínas . És Antônio?
És Francisco? És Mariana? Onde escondeste o verde
clarão dos dias? Onde
escondeste a vida que em teu olhar se apaga mal se acende?E passamos
carregados de flores sufocadas.
Mas, dentro, no coração,
eu sei,
a vida bate. Subterraneamente,
a vida bate.
(trecho de A Vida Bate, Ferreira Gullar)
terça-feira, outubro 19, 2004
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome. O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
( trecho de "Os Três Mal-Amados", do livro "João Cabral de Melo Neto - Obras Completas")
sábado, outubro 16, 2004
Onde você está? Aqui...na varanda...Minhas mãos sujas de terra, uma sensação de erro, culpa, sei lá...tem sido assim quase sempre.
O que você está...bonitas, as flores...você tem jeito com plantas...tem jeito com um monte de coisas... Que não servem para nada, não é?
Os olhos na planta, no vaso, na mão suja de terra, nos sapatos dele, na calça jeans...uma vontade de chorar..assim, quase sempre...
Essas são as melhores coisas, as que valem a pena...aprendi com você, lembra ?Não,não lembro...A mão dele suja de terra também, o vaso, a planta, o coração mais leve...um pouco...- Quando as crianças crescerem vamos morar no mato, você e eu, criar galinhas...Não! Vamos morar na praia...sem galinhas! Tudo bem, na praia...sem galinhas...vamos comer peixe...E andar de barco...Não, barco não! Tá bom, barco não...
As mãos limpas, o céu limpo, leve, azul, a planta no vaso, uma praia no mato, um apartamento na cidade...tudo leve, limpo, sem complicação...
Deixa eu te dar outra aliança? Não! Por quê? Aliança sim! Quero um anel colorido...-Anel colorido não...Sim...
Tudo quase sem complicação
quarta-feira, outubro 13, 2004
terça-feira, outubro 12, 2004
"Nasci homem, morri menino"
Fernando Sabino
Eu só quero que Deus me ajude
e ao menino muito mais também
Pois a rosa é uma flor
a flor é uma rosa
e o menino não é ninguém
Há seis mil anos o homem vive feliz
fazendo guerras e asneiras
Há seis mil anos Deus perde tempo
fazendo flores e estrelas
Eu sou um homem sincero
porque nasci , cresci e vivo livre
Eu sou um homem sincero
que quero morrer, nascer e viver livre
(Olha o Menino, Jorge Ben)
Nietzsche e Borboletas 2
Super-homens
Formigas ...
Um deus que dança sem parar
enquanto tudo em volta pulsa .
E eu, pequena, apenas sou.
Borboleta a meu modo
de asas transparentes e sangue verde,
depurando apetites de lagarta .
Essa borboleta decidiu brincar comigo...chegava pertinho, quase me esbarrava, exibia suas asas azuis...quando eu clicava ela fechava as asas ou voava para longe...se eu guardasse a camera lá vinha ela de novo! O máximo que eu consegui foi essa sugestão de azul...borboletas não estão nem aí para fotografias...mas foi muito bom vê-la!
segunda-feira, outubro 11, 2004
" Para quem quer se soltar
invento o cais
invento mais que a solidão me dá
invento lua nova a clarear
invento o amor
e sei a dor
de encontrar..."
Há duas maneiras de se alcançar Despina: de navio ou de camelo. A cidade se apresenta de forma diferente para quem chega por terra ou por mar.
O cameleiro que vê despontar no horizonte do planalto os pináculos dos arranha-céus, as antenas de radar, o sobressalto das birutas brancas e vermelhas, a fumaça das chaminés, imagina um navio; sabe que é uma cidade ,mas a imagina como uma embarcação que pode afastá-lo do deserto, um veleiro que esteja para zarpar, com o vento que enche as suas velas ainda não completamente soltas ou um navio a vapor com a caldeira que vibra na carena de ferro , e imagina todos os portos, as mercadorias ultramarinas que os guindastes descarregam no cais, as tabernas em que populações de diferentes bandeiras quebram garrafas na cabeça umas das outras, as janelas térreas iluminadas, cada uma com uma mulher que se penteia.
Na neblina costeira o marinheiro distingue a forma de um camelo, de uma sela bordada de franjas refulgentes entre duas corcundas malhadas que avançam balançando; sabe que é uma cidade, mas imagina como um camelo de cuja albarda pendem odres e alforges de fruta cristalizada, vinho de tâmaras, folhas de tabaco, e vê-se ao comando de uma longa caravana que o afasta do deserto do mar rumo a um oásis de água doce à sombra cerrada das palmeiras, rumo a palácios de espessas paredes caiadas, de pátios azulejados onde as bailarinas dançam descalças e movem os braços para dentro e para fora do véu.
Cada cidade recebe a forma do deserto a que se opõe; é assim que o cameleiro e o marinheiro vêem Despina, cidade de confim entre dois desertos.
( Italo Calvino, As cidades invisíveis, As cidades e o desejo 3 )
"..para quem quer me seguir
eu quero mais
tenho o caminho do que sempre quis
e um saveiro pronto pra partir
invento o cais
e sei a vez de me lançar"
( Cais, Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)
domingo, outubro 10, 2004
sexta-feira, outubro 08, 2004
"Meu tempo às vezes se perde
Em coisas que não desejo
Mas não repara esse lado
Pois meu amor é o mesmo..."
Pra você
Inconsequente
improvável
gratuito
consciente
de que tudo que se sabe
não passa
de escuro
mergulho.
Claro
colorido
absurdo
consistente
como tudo que se desfaz
quando se abrem os olhos
para dentro.
O meu amor é assim
do bem e do melhor.
Aceite...
"... às vezes eu me retiro
E nada mais faz sentido
Só há um canto na vida
Aonde eu me refugio
Afasta as sombras que eu vejo
Nos teus olhos tão aflitos
Você conhece minh'alma
E quando quer me visita "
Retiro
(Paulinho da Viola)
terça-feira, outubro 05, 2004
segunda-feira, outubro 04, 2004
"Quarenta anos é demais para uma mulher.
Prefiro quarenta e dois. "
Adélia Prado, Soltem os Cachorros
...Nunca me senti à vontade com adjetivos. Desconfio deles: feio ,bonito, bom ,mau, alfinetes em borboletas todos. Talvez por isso você estranhe minhas frases curtas, minhas reticências.
Aprendi a parar e respirar fundo entre palavras, idéias e decisões. Mas aprendi a ir em frente. Não é que não procure explicações, só não tenho pressa alguma de encontrá-las. Para ser sincera, são elas sempre que me encontram.
Não acredito em palavras bonitas vindas de quem nunca deu a cara a tapa, nunca se arrependeu de nada, nunca andou na beira do precipício ou quem sabe no fundo dele. A vida não acontece para quem se esconde, intensidade tem preço, se der eu pago, se não der jogo a toalha mesmo. Não sou super poderosa e não preciso salvar o mundo antes do café da manhã. Graças a Deus!
Não existe estrada reta. Quero poder olhar para a frente, para os lados e para trás sem susto.Depois da curva a paisagem é outra e quero acreditar que seja semnpre mais bonita , que o caminho esteja apenas no começo,que a qualquer momento uma borboleta cruza a estrada...
sexta-feira, outubro 01, 2004
Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio.
Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las.
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal
Ana C.
A foto, uma casa na Glória, quem me deu foi o Bob.
O post eu dedico à Leila, que fotografa, entre outras coisas, lindas janelas.
http://leiluka.fotoblog.uol.com.br/
Depois de ter cortado todos os braços que se estendiam para mim; depois de ter entaipado todas as janelas e todas as portas; depois de ter inundado os fossos com água envenenada; depois de ter edificado minha casa num rochedo inacessível aos afagos e ao medo; depois de ter lançado punhados de silêncio e monossílabos de desprezo a meus amores; depois de ter esquecido meu nome e o nome da minha terra natal; depois de me ter condenado a perpétua espera e a solidão perpétua, ouvi contra as pedras de meu calabouço de silogismos a investida úmida, terna, insistente, da Primavera.
(Rendição/ Octavio Paz)







