domingo, abril 23, 2006



(do escuro)


não há versos na gaveta
nenhum segredo guardado

escuro

- as coisas também morrem


***



fotos dormem entre páginas
de papelão cinzento

são menos tristes assim que as
que se esquecem nas paredes
e nos observam de molduras ovais


***


moedas antigas
permanecem na bolsa

o troco da avó
o pão embrulhado
a cama de barbante

pessoas passam depressa demais


***

nada era novo
nem a louça, nem os móveis
nem a colcha que viajou de navio
e a prata do faqueiro
tudo impregnado de tristeza vaga
e a ilusão de trazer
como mofo ou poeira
a eternidade agarrada


***

acordar todo dia
no velho quarto de duas janelas
dobrar o tempo até chegar à casa de agora
compreender afinal a geografia confusa dos velhos