
(do escuro)
não há versos na gaveta
nenhum segredo guardado
escuro
- as coisas também morrem
***
fotos dormem entre páginas
de papelão cinzento
são menos tristes assim que as
que se esquecem nas paredes
e nos observam de molduras ovais
***
moedas antigas
permanecem na bolsa
o troco da avó
o pão embrulhado
a cama de barbante
pessoas passam depressa demais
***
nada era novo
nem a louça, nem os móveis
nem a colcha que viajou de navio
e a prata do faqueiro
tudo impregnado de tristeza vaga
e a ilusão de trazer
como mofo ou poeira
a eternidade agarrada
***
acordar todo dia
no velho quarto de duas janelas
dobrar o tempo até chegar à casa de agora
compreender afinal a geografia confusa dos velhos
