sábado, agosto 11, 2012
sexta-feira, outubro 28, 2011
sábado, março 26, 2011
Bárbara
Ela tem os olhos da mãe...os olhos de minha mãe...eu nunca os vi, mas lembro que quando eu era bem pequena ouvi dos criados que os meus olhos eram iguais aos da minha mãe...depois foram deixando de falar dela...esquecendo. Mas eu não esqueci e fiquei imaginando seu rosto, de olhos iguais aos meus, uma mulher de olhos de criança.
Um dia perguntei a ama, se era mesmo verdade que eu tinha os olhos da minha mãe, ela disse que minha mãe era uma criança assustada e triste, que tinha sim, os olhos iguais aos meus, mas que era com meu pai que eu me parecia, e eu fiquei na dúvida se isso seria bom ou mau.
O meu pai...os criados tinham medo dele, até a ama, quando ele estava em casa falava baixo, olhava para o chão. Ele também me disse que eu tenho os olhos de minha mãe. Os olhos que ele não encontrou quando regressou de viagem, nem minha mãe nem o filho que ele tanto queria. Só uma menina magra, que ninguém sabe como sobreviveu e que ninguém esperava que ele um dia fosse erguer, aceitar como filha. Mas ele me deu seu nome, me salvou de um destino cruel. Assim me contaram os criados e por causa disso eu o amei: meu pai.
Foi por isso que eu desobedeci a ama, naquela tarde em que ele chegou cansado de viagem. Não olhei para o chão, não abaixei a cabeça. Olhei nos olhos do homem que não me rejeitara, o homem com quem, fora os olhos, eu me parecia. Olhei, com todo amor que eu tinha, os olhos do meu pai.
Ele disse que me mostraria o mundo, mas nunca me levou alem dos muros do jardim.” Ah, tolices de menina, o melhor do mundo ´são os presentes que te trago: ouro, sedas, pedras raras, conchas. Até os melhores professores...minha casa toda aos seus cuidados e caprichos...criados e escravos a seus pés”...tudo belo, vazio e morto como seus deuses de pedra, que eu quebrei um por um. Tão poderosos os deuses de meu pai que se faziam em pedaços nas mãos de uma criança.. Ah, meu pai...ainda assim eu te amei...e rezei junto com a ama para que você retornasse sempre com os presentes e as riquezas que tanto te orgulhavam e que para mim diziam tão pouco...
Não sei ao certo que idade tenho; a idade do mundo, talvez... Talvez seja muito mais velha do que a minha mãe ou a ama. O tempo passa rápido demais para uma menina. Doze anos, treze anos? A filha agora tem que se tornar mãe. Passa rápido demais o tempo dos brinquedos. As tardes no jardim com o pai. Ele sabia disso, eu pressenti
Dizem que sou bela, bonita até demais para uma esposa. A beleza numa mulher é algo que se equilibra com dificuldade entre a virtude e o vício, a maldição e o dom. Meu pai me disse isso e é provável que esteja certo. Perguntei se era bonita como a minha mãe, se éramos parecidas, a ama riu, disse que éramos muito diferentes, embora ambas fossemos bonitas. Disse que eu parecia um rapaz com seios e que para ela, as vezes era mais fácil me imaginar à frente de um exército do que fiando numa roca. Eu nunca entendi essas coisas da ama, nunca me interessei por armas e tropas, gostava de ouvir as histórias de meu pai, isso eu gostava. Nunca desejei também ser a esposa de ninguém, mas penso que gostaria de ser mãe, de olhar nos olhos de minha filha e ver os meus olhos, os olhos da minha mãe, os da mãe dela também. Ficava as vezes pensando coisas assim...Mas isso foi antes, antes da torre.
A torre não seria para mim maior prisão que o próprio corpo. Ah, meu pai querido, tão certo de seu poder, tão viajado e sábio, não percebe que é mais escravo que os servos que julga possuir
Foi com os criados da casa que aprendi primeiro as coisas de Deus. Aprendi sobre amor e perdão. Sobre um tesouro, que diferente dos que o meu pai possuia, jamais seria saqueado. Sobre um pai que consola os que sofrem e reparte o seu reino com os justos e puros de coração, com as crianças. Eu tentei falar ao meu pai, achei que a mim ele escutaria. Enganei-me, meu pai não escutava ninguém, nem mesmo seu coração, talvez por isso prefira seus deuses de pedra.
Não sei ao certo o que me espera, não sei se terei coragem ou força para suportar, sou uma menina criada entre paredes de pedra, talvez fraqueje, talvez chore. Talvez meu rosto e meu corpo frágil não consigam revelar a intensidade do meu amor por Cristo, pelos homens, por meu pai. Sim, por meu pai, daqui a pouco ele retorna com os soldados, vou rezar, pedir coragem. Quando ele entrar por aquela porta estenderei a mão. De olhos fechados deixarei que ele me conduza pela escuridão, subirei com ele a montanha, dócil como nunca consegui ser...se tiver tempo, quem sabe, antes da lâmina, avisto o mar...
domingo, novembro 14, 2010
Primeiro dia do horário de verão e o despertador toca às cinco. Cinco horas de domingo, na verdade quatro, e o céu escuro. Júlio vai fazer prova de vestibular, são setenta quilômetros até Curitiba, não sei exatamente quantos lá dentro, tenho medo de errar o tempo. Fica tranqüila, já vi o caminho, ajustei o GPS, domingo a estrada é vazia. Eu não costumava ser tão ansiosa ou quem sabe era e não percebia.
Chuva fina, céu escuro. Eu botei Beatles e Erick Clapton no pendrive para você mãe, o resto eu escolhi. Uma ou outra pessoa na rua com cara de sono, a cidade dormindo, eu conferindo o relógio, domingo, primeiro dia do horário de verão.
Meninos com cara de sono, cabelos engraçados, pais e mães com cara de pais e mães. Nós já fomos assim lembra? Éramos diferentes. Não, éramos assim com essas caras de criança. É, você está certo, éramos assim. Júlio já se misturou aos outros, chuva fina, linda manhã curitibana.
Não, nós éramos diferentes, o mundo era incrivelmente diferente. Você acha que mudamos pouco? Quero dizer, mudamos pouco em relação ao mundo, ficamos defasados, sei lá? Tem café servido para os pais na biblioteca, o jornal de ontem. Acesso liberado à internet.
Chuva fina, céu escuro. Eu botei Beatles e Erick Clapton no pendrive para você mãe, o resto eu escolhi. Uma ou outra pessoa na rua com cara de sono, a cidade dormindo, eu conferindo o relógio, domingo, primeiro dia do horário de verão.
Meninos com cara de sono, cabelos engraçados, pais e mães com cara de pais e mães. Nós já fomos assim lembra? Éramos diferentes. Não, éramos assim com essas caras de criança. É, você está certo, éramos assim. Júlio já se misturou aos outros, chuva fina, linda manhã curitibana.
Não, nós éramos diferentes, o mundo era incrivelmente diferente. Você acha que mudamos pouco? Quero dizer, mudamos pouco em relação ao mundo, ficamos defasados, sei lá? Tem café servido para os pais na biblioteca, o jornal de ontem. Acesso liberado à internet.
domingo, julho 18, 2010
Marco com traço vertical
o início da linha:
04-10 nasci
antes disso não era
no outro dia
ainda que ontem
não estava
Contorno a linha
com um círculo
como mais a frente farei
quando nascerem os meus filhos
e como faria neste outubro distante
minha mãe que já não é
o tempo então
será uma reta
uma curva
ou um desenho em espiral?
9x5
1
Não tenho a menor idéia da minha lembrança mais antiga. Invejo os que afirmam com toda segurança que foi a avó sorrindo debruçada no berço, um joelho arranhado ou qualquer coisa assim. Não que a lembrança faça falta, mas seria um bom começo.
Imagino que tenha sido muito feliz nos meus cinco primeiros anos porque tristeza deixa cicatriz e eu não encontro nenhuma. Lembro do cheiro de pó nas cortinas, a rua já naquela época era movimentada. Do espelho grande da penteadeira da mãe, da dama antigo com flores no colo, das japonesinhas de pernas de arame, que intrigante aquilo, tão lindas e não tinham pernas, de um radio cinza claro e dos abajours, seja lá como se escreve isso.
Lembro da mãe chegando para deitar com cheiro de sabonete, de ouvir histórias do meu pai, da minha cama cheia de travesseiros. Lembro que os travesseiros tinham nome, mas não lembro o nome de nenhum. Lembro dos pais conversando em voz baixa coisas que eu não teria como entender.Essas coisas, cheiros, sussurros, sei que são lembranças, não estão em fotos nem em nenhuma história que alguém tenha me contado depois. O resto não tenho tanta certeza.
Foi nessa época que o homem chegou a lua. Quando fiz uma entrevista para entrar na escola li a palavra ASTRONAUTA na última capa de uma revista. Não me lembro de mais nada a respeito, diferente do meu marido que diz que se recorda até hoje das imagens do noticiário. Política nem pensar, só se tornou assunto na casa depois que nos tornamos adolescentes. Sim, importante, nesses primeiros cinco anos a família aumentou, ganhei um irmão. Não me lembro da minha mãe grávida, mas lembro que achei que ele tinha um dedo a mais, o que fez todo mundo rir e me deixou furiosa.
Lembro do som arrastado dos passos do avô e dos seus chinelos de couro. Ele sentado na varanda, cabelos brancos e óculos. Minha mãe tentando desambaraçar meus cabelos e eu tentando fugir. A árvore de natal, os vasos de planta, os bolos de aniversário, o carnaval. Mas foi só quando entrei na escola é que passei a contar o tempo, aí sim.
domingo, dezembro 06, 2009
Dióscoro
Os deuses me abençoaram muitíssimo. Esses deuses, a quem conheci e aos quais prestei o devido culto, por quem celebrei e ofereci as melhores oferendas, me deram tudo o que um homem poderia desejar, em abundância e ,quem sabe, em excesso. Nasci rico, multipliquei o quanto pude tudo que ganhei. Conheci o mundo. Tive desde novo as mulheres que desejei e embora não tenha levado em conta, fiz com certeza muitos filhos. Fui respeitado, temido, obedecido. Aprendi o prazer de possuir e também o de destruir. Muito pouco me faltou. Talvez isso que as almas frágeis chamam de amor, talvez isso tenha me faltado por um tempo. Isso que nunca tinha visto nos olhos das mulheres que possui, e foram muitas. Isso com o qual nunca me importei e que vi pela primeira vez nos olhos daquela maldita, minha filha, meu sangue.
A mãe dela nunca me olhou assim, e olhe que ambas tinham os mesmos olhos. Ah, a mãe dela, um dos meus maiores enganos. Uma das mulheres mais belas que conheci, um corpo saudável, puro, um rico dote, uma alma fraca, incapaz de apreciar a beleza, o prazer. O refinamento de uma escultura de mármore, a beleza das construções humanas, a alegria das festas, do sexo, do ouro. Se escondia no escuro do quarto, tinha medo do pecado , de seu Deus triste e morto. Não poderia criar os meus filhos, eu os levaria para longe dela tão logo pudesse, os educaria para serem vitoriosos e ricos, e não lamentosos e suplicantes. Levaria sim, para longe, mas não foi preciso, ela não os teve. Seu Deus não a salvou de um parto difícil, frágil Deus que era. Restou a menina. E eu poderia ter tantos filhos quisesse, procuraria uma nova esposa, encheria de crianças o castelo, tinha para isso o apoio dos deuses, deuses eficientes, fiéis aos que mantém reluzentes os seus templos, prósperos seus sacerdotes.
Foi quando a menina me olhou, a desgraçada. E eu vi nos olhos dela aquilo que eu nunca pretendi conhecer. Ela me olhou com amor, e eu compreendi em segundos o que nunca nenhum sábio conseguiu me explicar. Amor, era a razão daquele brilho maldito. Amor por mim, que nada fiz por merecer, que mal a tinha enxergado desde que nasceu. Aquela menina me olhava com amor e me chamava de pai. E eu esqueci dos filhos que teria, das esposas que deveria mandar buscar, talvez tenha esquecido dos deuses, tenha falhado em minhas obrigações. Não percebi, mas devo tê-los negligenciado. Ela ocupava todos os meus pensamentos. Por ela eu viajava, trazia os melhores presentes, as histórias mais belas. Me tornava cada vez mais rico. Para ela, só para ela. Contratei os melhores professores, não a queria tola como a mãe. Nem que aprendesse com as criadas da casa essas pieguices, crenças de ignorantes. Minha filha era bela e pura, uma rainha, uma deusa. Quem sabe foi aí que os ofendi.
E ela crescia. Crescem rápido as meninas. Seu corpo começava a tomar formas de mulher, mas seus olhos continuavam os mesmos, cheios de amor, amor por mim, seu pai. Eu tinha pesadelos. Em breve teria que dá-la a outro homem. Ele tocaria seu corpo perfeito, faria nela um filho. A idéia me deixava doente. Minha filha, meu sangue, a única mulher que me amou, não poderia ser de ninguém. Mas se até em sonhos...que homem ao olhar para ela não teria vontade de possuí-la, ainda que em sonhos. Sonhos asquerosos. E aí mandei construir a torre. Não, não era uma prisão, era um palácio e ela, rainha absoluta. E eu ,seu mais fiel súdito, voltaria para ela ao fim de cada viagem. E contaria histórias. E traria os mais ricos presentes. E riríamos juntos, celebraríamos a boa fortuna, o ouro, a beleza. Ela seria a mais feliz das mulheres, a mais amada, talvez a única verdadeiramente amada. Sim, mandei construir a torre. Estaria segura a minha menina.
Foi quando retornei, de uma das muitas viagens, sedento por seu olhar de amor, aquele olhar que tinha se tornado meu mais precioso tesouro. E ela me olhou, e havia amor em seus olhos, havia amor, mas um amor que me atravessava a alma, que ia além de mim, seu pai, e se espalhava pelas árvores, pelo vento , pelo chão. Um amor que jamais seria só meu, que se expandia como o vento, como a água em sua corrida para o mar. Ah, como fui tolo afastando-a assim do mundo, da vida, dos prazeres reservados aos jovens. Sim, fui tolo, mas ainda haveria conserto, eu poderia mostrar-lhe o mundo, permitir que ela escolhesse um marido , que cumprisse seu destino de mulher. Me contentaria com a ternura destinada a um velho pai, mas só para mim, não esse amor difuso que eu não consigo suportar, esse amor por todos de que o tal Deus morto pregava. Ela me pediu uma fonte, um banhado, eu achei que estava curada. Sairia de sua banheira perfumada, mais bela do que nunca, não mais a menina, mas uma mulher. E agradeceria a mim, seu pai. Mas o que fez a louca? Gravou no mármore branco aquele símbolo de morte, destruiu as estátuas dos deuses, fez abrir uma janela, mais uma janela, símbolo de uma absurda trindade. E aquele amor em seus olhos, insuportável amor. Eu a machuquei, a arrastei pelos cabelos, a humilhei. Se não era mais dono de seu amor, seria dono de seu ódio. A raiva a curaria desse amor obsceno.
O medo a faria voltar para mim, não seria a primeira vez que eu conseguiria dominar alguém pela força. Ela voltaria a ser minha. Mas seu olhar não mudou, seu amor não mudou. Já não era a minha filha, pertencia ao seu Deus. E como ele haveria de sofrer.
E morrer. Mas não morria, não vergava, não cedia, não havia dor capaz de apagar de seus olhos o amor do tal Deus. E seu corpo sempre puro, seu olhar sempre radioso. Cabia a mim, seu pai acabar com isso. Uma ofensa a todos os deuses, uma abominação. Sim, morreria pela minha espada a criatura, e os deuses me perdoariam , não seria mais motivo de riso e chacota dos meus pares, muito menos dessa gente ignorante e crédula.
E eu a levei para a montanha, ignorei suas súplicas, pela minha alma, ela dizia, não por ela. Encostei minha espada em sua pele macia e branca. E não foi o raio, foram seus olhos, seu olhar de amor por mim que me fez cair fulminado.
(incluído na peça O Raio e a Flor de Cerejeira de Nadia Burda sobre a vida de Santa Bárbara. O monólogo de Dióscoro foi uma pequena contribuição minha para o texto da peça)
domingo, setembro 20, 2009
(Dans Mon Ile)
O sol, todas as manhãs e o mar azul.
E o barco, as pedras, a cortina:
o mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar.
E não é que eu pendurei o quadro? Tudo bem, é muito ruim, eu, os pincéis e as tintas não somos lá os melhores amigos, mas agora, quando acordo, nestes dias de inverno sem fim, a primeira coisa que vejo é o mar, um céu azul escandaloso e o poema de Drummond.
Ah,o mundo é grande, o amor e o mar também.
Assim acordo na cidade fria,
no domingo cinza
e ouço a canção bossa-mãe,
aqui, tão longe da minha ilha,
acordo e vejo mar.
sexta-feira, setembro 11, 2009
domingo, março 08, 2009
domingo, fevereiro 22, 2009

Maya
Tudo é trama,
teia,
entrelace.
O mundo é pequeno
e por estarmos tão perto
nos perdemos sempre.
Pura brincadeira.
Tempo?
O amanhã é tão antigo
quanto ontem.
O átomo sim,
é imenso
e divide-se infinitamente.
Gato no muro,
negro no negro da noite-
sete vidas para quê?
Mariposa na lâmpada
sombra na sombra da noite-
sete cores para quê?
Marcadores: 2004
sábado, fevereiro 21, 2009

Contramão
Lua cheia, amarela
asfalto ainda quente
caminho no sentido contrário
aos carros,
às pessoas,
à lua.
Lua cheia, amarela
todo mundo tem pressa
todo mundo tem rumo
todo mundo alguma coisa busca
Quando voltar
te encaro de frente,
lua.
Marcadores: 2004
domingo, fevereiro 15, 2009

Voo
(para Neyde)
Viver
morrer
estar aqui ou não-
importa a quem?
Trazemos conosco a resposta
antes mesmo da pergunta
exposta explícita
na totalidade das coisas
Viver ou morrer, não passa
de um abrir de asas
um princípio de voo.
(2004)
Marcadores: 2004
quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Tempo
Do alto da velha árvore me espreitas
Tens o passo leve e os olhos atentos
Pode ser que nos abracemos ainda hoje
Ou continuaremos através dos anos
Nossa negociação:
Por que a pressa moço,
tudo afinal já é teu
Então permita que eu veja
o amadurecimento dos frutos
O brotar das sementes
A última flor
Então me empreste teus pés ligeiros
Teu silêncio, teu verde musgo
Teu laço branco, tua secreta paz
Tens o passo leve e os olhos atentos
Pode ser que nos abracemos ainda hoje
Ou continuaremos através dos anos
Nossa negociação:
Por que a pressa moço,
tudo afinal já é teu
Então permita que eu veja
o amadurecimento dos frutos
O brotar das sementes
A última flor
Então me empreste teus pés ligeiros
Teu silêncio, teu verde musgo
Teu laço branco, tua secreta paz
sexta-feira, fevereiro 06, 2009
Celso, Quintana, eu e minha saudade às avessas...

A cidade invadiu o canto desprotegido
do sabiá do peito amarelo.
A cidade assaltou o trinado desamparado
do sabiá do peito vermelho.
Por isso o canto desprotegido do sabiá
do peito amarelo,
pousado naquela árvore de concreto,
tem um gosto amargo de cimento.
Por isso, o trinado desamparado
do sabiá do peito vermelho,
pousado naquela janela de metal,
tem um cheiro podre de asfalto.
A cidade extinguiu o existir episódico
do grilo cantante.
Por isso o cri-cri monofônico do grilo,
perdeu-se na polifonia desvairada
dos fon-fons.
O sol derreteu as cores esvoaçantes
da borboleta transparente.
Por isso, a borboleta transparente,
rasteja o hálito das flores de plástico,
em busca da seiva cromática.
A cidade vai caminhando voraz
(Celso Cirilo, 2009)
*******
Onde estão os meus verdes?
Os meus azuis?
O arranha-Céu comeu!
E ainda falam nos mastodontes, nos brontossauros, nos tiranossauros,
Que mais sei eu...Os verdadeiros monstros, os Papões, são eles, os arranha-céus!
Daqui
Do fundo
Das suas goelas,
Só vemos o céu, estreitamente, através de suas empinadas gargantas ressecadas.
Para que lhes serviu beberem tanta luz?!
Defronte
À janela onde trabalho
Há uma grande árvore...Mas já estão gestando um monstro de permeio!
Sim, uma grande árvore... Enquanto há verde,
Pastai, pastai, olhos meus...
Uma grande árvore muito verde...
Ah,Todos os meus olhares são de adeus
Como o último olhar de um condenado!
(Poema de Circunstância, Mário Quintana)
*******
Vagalume perdido
na cozinha escura
abro a janela
entre grilos e estrelas
todas as noites são frias
uma lembrança:
onde estão as janelas,
as esquinas, as luzes,
minha cidade enfeitada?
Encostada ao ladrilho frio
observo voar errante
a circunstância do poema
na cozinha escura
abro a janela
entre grilos e estrelas
todas as noites são frias
uma lembrança:
onde estão as janelas,
as esquinas, as luzes,
minha cidade enfeitada?
Encostada ao ladrilho frio
observo voar errante
a circunstância do poema
(Circunstância,2009)
terça-feira, novembro 25, 2008
"As palavras me visitam Tão depressa Que não há tempo de dizer-lhes o nome. As palavras aparecem e se vão... "
(2004)
Palavras o vento leva. O que se escreve fica ali, esquecido ou incomodando, mas fica: um dia percebi o mundo desta forma, deste jeitoe quis te mostrar, um dia, do lado de lá do espelho, você quis ver.Palavras e seu sentido múltiplo, pontos, parágrafos, pausas e o espaçode mistério entre as linhas, reticências, fim. Não tem o som do risonem a lágrima no canto do olho. Mas tem um jogo, uma brincadeira, queassim, de frente pra você, olho no olho, não consigo fazer. Você me confunde.
(2004)
Palavras o vento leva. O que se escreve fica ali, esquecido ou incomodando, mas fica: um dia percebi o mundo desta forma, deste jeitoe quis te mostrar, um dia, do lado de lá do espelho, você quis ver.Palavras e seu sentido múltiplo, pontos, parágrafos, pausas e o espaçode mistério entre as linhas, reticências, fim. Não tem o som do risonem a lágrima no canto do olho. Mas tem um jogo, uma brincadeira, queassim, de frente pra você, olho no olho, não consigo fazer. Você me confunde.
Eu te leio, releio. Escuto. Uma certa coisa dita assim sem intenção,comentário distraído. Sua voz tem tempo deixou as letras vazias,apenas um zumbido sem sentido. Queremos permanecer, eu, você e nossas palavras tortas no branco sempre certo da tela. Escrevo,confundo, lembro uma bobagem qualquer, boa o bastante para rir sozinha. Deixo o escrito pelo não dito e prossigo, feliz por você um dia ter lido.
