sábado, janeiro 22, 2005



Um dia ela olhará meu jeans, minha sandália, minha camiseta, meus óculos, que sempre são os mesmos e nunca foram iguais aos dos outros caras, principalmente no outono estranho de São Paulo.

Diferente de muitos, sou um homem que consegue trocar de estilos, sou um sujeito que sabe muito bem quem é, afinal sou assim, como um camaleão tropical.

Tenho sentimentos diferentes em dias iguais, sentimentos iguais em noites diferentes.

Tem noites que penso de dia e tem dias que sinto à noite.

Quase todos os dias sinto pelo que penso.

Quase todas as noites escrevo...

Mas sou capaz de me camuflar na mesma pele.

Não é se repetindo que chegamos a nós mesmos, é mudando.

Tenho o espírito liquefeito, a mente dispersa, a vontade inquieta, mas sei o que quero, gosto do que sinto.

Singularidade, feição, estilo, despojamento, gratuidade... Muito comum às pessoas que são seguras como os camaleões.

Ora, por que sabemos que um camaleão é um camaleão? O que sabemos sobre os camaleões?

Porque ele troca de cor, de estampado, de aparência e, no entanto, quando o vemos, podemos dizer: - Eis um camaleão! Uma verdadeira celebração da natureza. Um "pé-na-bunda" na monocromia fashion que a cada estação desaba na nossa retina.

O camaleão causa uma verdadeira fobia nas modinhas e em algumas mocinhas talvez.

Um dia, talvez eu a deixe olhar minhas revistas velhas, meus desabafos literários, minha agenda, minha caixa postal... Talvez um dia a deixe usar meu jeans, minhas camisas e gravatas, enxugar-se na minha camiseta, e ela encontrará um cara para quem a felicidade é mais importante que o prazer, um cara que acha a direção mais importante que a velocidade. Um cowboy que adora metáforas, mas não dispensa nem duvida da pólvora.

Ela tirará, ansiosa que é, lições apressadas, talvez definitivas, mas não seria capaz de entender.

Até hoje (de manhã, no posto de gasolina) não foi, e talvez nunca será. Nunca o fora nestes últimos meses. Mas nem por isso deixarei de calibrar e recalibrar a pressão dos cinco pneus... Que pena, ainda acho que um dia ela olhará pra mim e combinaríamos de alguma forma, em alguma cor, em algum tom.

Por enquanto fico com a lembrança etérea da mistura de Donna Karan e gasolina aditivada me perturbando até o tanque esvaziar ou a ansiedade disfarçada de distração dela passar.

(Diário Noturno de 02/06/2001, sob a influência de José Castello, Postos Shell, e qual será mesmo o nome dela?)
ManuCoelho


O texto eu roubei, a foto fui buscar, o post vai com um abraço e o desejo de muitas felicidades para o moço aquariano....Parabéns, Manu!

http://www.fotolog.net/manucoelho